História de “Nego Adão”


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África! África!

Terra por mim muito amada e nunca esquecida. É por ti que bate forte meu coração. É por ti que minha alma chora, numa saudade que não tem fim. Nasci livre a correr por teus prados, livre eu cresci! Quantas vezes esqueci de mim mesmo sob a sombra dos baobás, a admirar-te os encantos…

Quantas vezes acariciaste meus pés descalços quando eu corria e corria por tuas savanas até quedar-me exausto sobre teu solo, quando então acalentavas meu corpo suado e me ofertavas o aroma de tuas entranhas…

África! África!

Corria em minhas veias o sangue do teu povo! Jovem, forte, tinha sede de vida e de liberdade! Alimentava-me dos frutos que parias nas mais diversas estações. Matava minha sede em regatos de frescas águas que vertias de teu seio e me oferecias num gesto de desprendimento e de amor.

Eu era livre! A maldade humana ainda não havia visitado meu coração. Foi quando vieram os homens de pele branca, trazendo as sementes da dor e do ódio. Como tantos outros do meu povo, fui arrancado dos teus braços para nunca mais voltar. Atirados no porão escuro de um navio, grossas correntes nos aprisionavam a ferir nossa pele, acostumada com as carícias dos ventos que sopravam nas planícies e nas montanhas africanas. Ali trancados, sem saber se era dia ou se era noite, o tempo foi passando e morríamos uns após os outros, vitimados pela febre e pela saudade.

E o navio cada vez mais nos levava para longe, muito longe da costa africana. Não mais o ar puro dos prados e das savanas, não mais o cheiro daquela terra querida. Abafei em meu peito o que de mais valioso eu tinha: meu grito de liberdade!

Nascia em meu coração um sentimento novo, diferente, desconhecido, tão intenso como aquele que eu tinha por minha África querida. Eu aprendera a odiar! Finalmente o desembarque. Ali mesmo no porto vi meu povo ser vendido, irmãos serem separados, mulheres apartadas de seus homens, filhos levados de suas mães. Vi nos olhos de cada irmão a dor da dignidade ferida e aniquilada pela cobiça do homem branco.

Depois, o cafezal, o trabalho sem trégua, o chicote do feitor. O tempo passou e fui levado para dentro da casa grande, onde deram-me roupas limpas, alimentaram-me, ensinaram-me a ler e a contar. Fui levado à presença de meu senhor e nunca mais voltei para a senzala. Mas o ódio não arrefeceu em meu coração pois lá fora, nos cafezais, continuava a minha gente; e quando a noite chegava eu adormecia sob o embalo dos seus tambores que mais pareciam o triste lamento de um povo sofrido e oprimido.

Certo dia, um deslize do meu senhor. Não podia calar-me e deixei que se extravasasse todo o ódio que estava represado em meu coração durante tanto tempo. Era o momento da vingança e assim eu fiz. Depois da denúncia, a fuga. Embrenhei-me pelo mato durante dias, caçado como um animal, sem comer e sem dormir na ânsia de sobreviver. Não tinha mais forças quando apanharam-me e arrastaram-me de volta, amarrando-me no tronco. Estava no auge da minha exaustão e quase não sentia meu corpo. Escutava só a voz do feitor a gritar: ” -Nêgro fujão! Nêgro traidor!” Mas minha alma exultava pois naquele momento eu compreendia que era livre. Meu corpo era escravo, mas minha alma era livre! Então meu pensamento levou-me de volta à minha África tão amada. Eu estava feliz!

De repente uma dor lancinante e nada mais percebi. Quando acordei alguém cuidava das minhas feridas e cantava baixinho uma canção da minha terra. A dor e a febre não me davam trégua, mas aquela voz anestesiava-me fazendo-me adormecer.

Cegaram-me para que eu nunca mais traísse um branco. Quebraram-me as pernas para que eu aprendesse a não mais fugir. Sem os olhos e mal conseguindo andar com minhas pernas tortas, não havia mais trabalho para mim. Voltei para a senzala e iniciei novas atividades, bem diferentes da primeira, mesmo assim fui esquecido. Até que um dia chegou a morte e ajudou-me a abandonar aquele corpo doente e cansado.

Era a liberdade tão sonhada! Senti-me imediatamente arremessado à minha África distante e, quando dei por mim, estava ajoelhado no lugar onde eu corria quando era menino. Beijei várias vezes aquele solo tão amado e chorei como nunca havia chorado em toda a minha existência. Sentia-me fraco e cansado. Minhas pernas pareciam enraizadas no chão e eu não conseguia movê-las. Vinha o dia, a noite, a chuva, o sol… mas não sei por quanto tempo ali permaneci; talvez por muitos anos.

Até que um dia senti a presença de alguém ao meu lado. Tentei gritar mas a voz não saiu. Foi quando ele colocou a mão em minha cabeça e rezou uma reza que eu não conhecia. Mandou-me abrir os olhos, pois agora eu já poderia enxergar novamente. E à minha frente eu vi um homem branco que me estendia as mãos, dizendo: ” Vem, já perdeste muito tempo. Teu povo agora é livre e é tempo de perdoar. Faz do teu sofrimento um motivo para amar!”

Então me fez adormecer e levou-me para um lugar onde passei longo tempo em recuperação e aprendizado. Aprendi a perdoar e amar o homem branco através daquele ser que me havia mostrado o caminho da verdadeira liberdade. Mais de um século se passou desde que deixei meu corpo físico, mas até hoje continuo seguindo os passos deste médico que curou-me a alma dando-me a grande oportunidade de atuar neste país como espírito desencarnado, liderando uma falange de espíritos que aqui muito sofreram como escravos, mas também conseguiram quebrar os grilhões do passado pela força do amor.

Ensaios psicográficos realizados em 1985, 1989, 1991 e confirmado em novembro de 1999. Autorizada a publicação pela Entidade responsável pela projeção, criação e manutenção do complexo NOSSO LAR.

Alguns dados sobre o personagem da história: Trata-se de um “Preto Velho” Africano, que viveu em São Paulo (Santos), antiga Vila São Vicente. Hoje integrante de uma ordem espiritual de muito entendimento evangélico, atuando na área médica espiritual, junto com o Mentor Espiritual do Núcleo Espirita Nosso Lar, nas lidas de cuidados e curas. Método de comunicação: através de psicografia e psicofonia com um determinado médium, mais de 22 (vinte dois) anos.

Fonte: http://www.nenossolar.com.br/index.php?option=com_content& view=article&id=262:a-historia-de-qnego-adaoq&catid=24:historias&Itemid=3

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Sobre Caminhos para Aruanda

Saravá a todos! Sou umbandista e venho por meio desse "portal" tentar contribuir um pouco para desmistificar a nossa querida Umbanda. Aqui você conhecerá sobre os mitos, orixás, pontos cantados, orações, oferendas e um pouco mais sobre o sincretismo brasileiro. Sejam bem-vindos a nossa cultura Afro-Brasileira, ou melhor, sejam bem-vindos à Umbanda!.
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Uma resposta para História de “Nego Adão”

  1. Nilda disse:

    Bom dia!
    Vim aqui agradecer seu comentário lá no meu blog, o primeiro que ele recebeu desde que o criei! Fiquei feliz! Obrigada!
    Ainda estou engantinhando nessa religião, mas estou amando o aprendizado.
    Sinta-se a vontade para voltar sempre que quiser, eu voltarei sempre aqui.

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